terça-feira, 24 de março de 2009
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Ares de poeta (André Luiz Oliveira) A palavra é pântano. Mergulhai, anfíbio, nessa superfície arriscada! Se algum dos teus disfarces preservar-lhe a tez, Dissimula mais um pouco Sê menos rijo. Quem sabe do bruto ser a poesia não te reserva ternura?! |
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preta-vida (andré luiz oliveira) ah, pretume impregnante que me acompanha!! de quantos enxágües forçosos não escapaste para que permaneceste vivo [noutros pretos-cingidos iguais a mim a quem interessa afinal não ser o alvo sobre o qual incides senão aos [indignos de cor? embora, às vezes, me falte o som quando de mim precisa ouvir a [a força de tua imagem, te carrego deliberadamente como símbolo. preta-vida da alegria que busco com desejo incansável, dos sonhos da meninice branda, daquele beijo de que tive medo ao enfrentar... preta-cor da poesia em pele, que ora visto mas que não desejo perder até quando olhos tiver abertos como [duplos círculos preta-raça em cujo rastro sangra (pois te golpearam covardemente [ao passar) e continua avante... [... que pena a situação geral não ser preta, inundando a vida de beleza e ternura! |
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terça-feira, 11 de novembro de 2008
Édipo sujo e as equivalências (André Luiz Oliveira) Como se fosse rasgando a brisa O rosto de barba mal feita e olhos corais Exibia o sorriso anestésico da vingança Deixava entrever pés descalços no rastro firme As narinas aguçadas experimentavam a fragrância do último ato Sentia seu triunfo na sutileza das sonoridades matutinas Queria ser aquele pássaro para esgueirar-se entre os galhos velhos Desejava ser o réptil em atitude afirmativa e rastejante Perdia-se em assimilações circunstanciais e antropomórficas Pela primeira vez, sentia aquele prazer animalesco Que o deixou de pernas bambas e corpo umedecido Amava aquela anciã desgrenhada que possuíra com voracidade Nem sabia a pobre senhora que seu algoz a venerava; Que suas unhas pobres outrora havia o extraído do ventre inchado. Seu filho–lixo lhe roubara a vida: o prazer de tê-lo jogado aos vermes. |
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segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Sentimento das coisas Me acostumei com o azul dos azuis, Pois não houve escolha entre meus olhos-criança Que aprenderam a olhar apenas uma face Face à variedade sígnica que desconheci desde cedo. Contentei-me com as concatenações ordinárias Com a função do á no ar e na água do mar. Acreditei no batismo gratuito das coisas Que nem sequer se revoltarão contra seus nomes. Nasci e vivo num mundo sabidamente deflorado Mas a virgindade sobrevive casta e absoluta. Ainda dizem que tenho que cumprir uma missão Como se minha vida estivesse à venda. Depois de crescido, me vem uma teoria besta Querer capturar meu desejo com sua música oferecida: Vá se arrombar Ave Maria! In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. |
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quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Tribulação de um pai de família (Kafka)
Naturalmente ninguém perderia tempo em tais estudos se não existisse realmente um ser chamado Odradek. Seu aspecto é o de um carretel de linha, achatado e em forma de estrela, e a verdade é que se parece feito de linha, mas de pedaços de linha, cortados, velhos, emaranhados e cheios de nós, de todos os tipos e cores diferentes. Não é apenas um carretel; do centro da estrela sai umahastezinha e nesta se articula outra em 6angulo reto. Com a ajuda desta última de um lado e um dos raios da estrela do outro, o conjunto pode ficar em pé como se tivesse duas pernas.
Seriamos tentados e crer que esta estrutura teve alguma vez uma forma adequada e uma funçao, e que agora apenas está quebrada. Entretanto, esse não parece ser o caso; não há pelo menos nenhum sinal disso; em parte alguma se vêem remendos ou rupturas; o conjunto parece sem sentido, porém completo à sua maneira. Nada mais podemos dizer, porque Odradek tem estraordinária mobilidade e não se deixa capturar.
Tanto pode estar no forro, como no Vão da escada, nos corredores, no saguão. Ás vezes passam-se meses sem que alguém o veja. Terá se aninhado nas casas vizinhas, mas sempre volta à nossa. Muitas vezes, quando cruzamos a porta e o vemos lá embaixo, encostado ao balaústre da escada, temos vontade de falar-lhe.
Naturalmente não se fazem a ele perguntas difíceis, mas sim o tratamos - seu diminuto tamanho nos leva a isso - tal qual uma criança. "Como te chamas?"perguntam-lhe. "Odradek",diz. "E onde moras?" "Domicilio Incerto", responde , e ri, mas é um riso sem pulmões. Soa como um sussuro de folhas secas.
Geralmente o diálogo acaba aí. Nem sempre se conseguem essas respostas; por vezes guarda um silêncio, como a madeira de que parece ser feito. Inutilmente me pergunto o que acontecerá a ele. Pode morrer? Tudo que morre teve antes um objetivo, uma espécie de atividade, e assim se gastou; isto Não acontece com Odradek. descerá a escada arrastando fiapos frente aos pés de meus filhos e dos filhos de meus filhos? Não faz mal à ninguem mas a idéia de quepossa sobreviver-me é quase dolorosa para mim.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Xilogravura: arte popular
por Carolina Lopes
A xilogravura é um processo de gravação em relevo que utiliza a madeira como matriz e possibilita a reprodução da imagem gravada sobre papel ou outro suporte adequado.
Para fazer uma xilogravura é preciso uma prancha de madeira e uma ou mais ferramentas de corte, com as quais se cava a madeira de acordo com o desenho planejado.
É preciso ter em mente que as áreas cavadas não receberão tinta e que a imagem vista na madeira sairá espelhada na impressão; no caso de haver texto, grava-se as letras ao contrário.
Depois de gravada, a matriz recebe uma fina camada de tinta espalhada com a ajuda de um rolinho de borracha. Para fazer a impressão, basta posicionar uma folha de papel sobre a prancha entintada e fazer pressão manualmente, esfregando com uma colher ou mecanicamente, com a ajuda de uma prensa.
Como podemos constatar, é uma técnica bastante simples e barata; por isso se presta tão bem às ilustrações das capas dos folhetos de cordel. Para termos uma idéia desta simplicidade, basta saber que os gravadores nordestinos fabricam suas próprias ferramentas de corte com pregos e varetas de guarda-chuva, por exemplo, para conseguirem diferentes efeitos no desenho.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Prelúdio à fruição (André Luiz Oliveira) A inspiração é pouca e a fome muita Não desejo as frases, não as sinto minhas. Não perderei tempo valorando os vibratos das rimas, Iludir-me atribuindo as variáveis da equação cansada da métrica. Uma necessidade carnal me consome o sentimento das coisas Que não posso tragar e mastigar. Quero desobrigar-me da crítica caçadora de sintaxes, Sentir o meio-dia adiantado aliciar meu estômago Lubrificar a organicidade maquínica do meu intestino Com farinha, feijão, um pedaço de carne, suco feito às pressas Ou água mesmo, e sua limpidez duvidosa. Abastecido, mandarei às favas os bons tons e a cerimônia retórica Que bucho vazio não vinga poesia colorida. |
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